A Dentista Que Fundou Duas Empresas
Toda empresa tem uma história de origem que ela poliu para o site institucional. A nossa resiste ao polimento, porque começa com uma emergência odontológica.
O dente quebrado
Em 2013 e 2014, eu e meu sócio Gustavo estávamos ficando sem dinheiro. Estávamos na segunda startup seguida que não dava certo - primeiro um “Airbnb de carros”, depois um projeto de caronas que viralizou na TV nacional e nunca rendeu um real. O dinheiro estava quase no fim. A situação tinha desabado num binário: construir algo que gere receita, ou procurar emprego.
Eu tenho bruxismo quando fico nervoso. Naquele ano, motivo para nervosismo era o que não faltava - o suficiente para o bruxismo finalmente quebrar um dos meus dentes, e eu ter que ir à minha dentista consertá-lo.
Enquanto eu estava na cadeira dela, descobri que o software que tocava o consultório tinha acabado de dar problema. De novo. E quando olhei para ele, entendi por quê: rodava numa máquina virtual de Windows, no Mac da recepção, conectado a um servidor físico dentro do próprio consultório. Cada camada daquela pilha era um acidente esperando para acontecer, e os acidentes chegavam no horário. Tentei resolver o problema imediato para ela. Não consegui.
Então fiz a única pergunta que importava: “Quanto você paga por isso?”
Mil reais por ano.
Um dia para o mockup, um mês para o produto
Voltei para casa com uma ideia que não largava de mim: construir o que ela realmente precisava. Naquela mesma noite, assistindo o jogo do Flamengo, fiz um mockup. Não era um documento de especificação, não era um plano de negócios - eram telas. Mostrei ao Gustavo, e fizemos o que continuaríamos fazendo pela década seguinte: cortamos. Simplificamos tudo até sobrar o menor produto que de fato servisse a ela.
No dia seguinte, almocei com a minha dentista e coloquei o mockup na frente dela.
“Você pagaria por isso? Vai custar mil por ano - o que você paga hoje.”
A resposta foi um sonoro e instantâneo “CLARO!”. Confesso que não acreditei. Então passei o resto da semana mostrando aqueles mockups para todos os dentistas que eu conseguia alcançar, fazendo a mesma pergunta direta sobre o mesmo preço. As respostas continuaram voltando sim - sim para a necessidade, sim para a disposição de pagar.
Existe uma vantagem em estar com a corda no pescoço: o desenvolvimento voa. Sem receita e sem tempo, não existe outro caminho. Exatamente um mês depois daquele almoço, a primeira versão do Doutore estava no ar na clínica dela - uma agenda diária simplíssima e um histórico de pacientes que chamávamos de Histórico. Ela foi a nossa primeira cliente pagante.
Isso foi em 2014. Somos lucrativos desde o ano seguinte e nunca captamos um centavo.
Onze anos depois
Ela continua cliente até hoje. Sabe que é a cliente nº 1 - não é um segredo entre nós; é um pedacinho de história compartilhada. Com os anos, ela virou algo mais útil do que uma cliente: uma das nossas melhores conselheiras. Quando você atende alguém por onze anos, vê o consultório mudar, conserta o que quebrou e constrói o que faltava, a relação deixa de ser comercial. Ela nos diz a verdade.
E foi assim que o mesmo consultório produziu uma segunda empresa.
O estagiário
Anos depois - onze anos tocando uma empresa de software lucrativa - conseguíamos enxergar outro problema com clareza. Na saúde brasileira, colher assinaturas legalmente válidas em documentos é doloroso. O caminho padrão exige um certificado digital ICP-Brasil que a maioria dos pacientes simplesmente não tem. Termos de consentimento, contratos, planos de tratamento: toda clínica improvisa em volta do mesmo processo quebrado.
Sabíamos que o problema era real. Mas, para nós, saber nunca foi a régua. Entender é.
Então voltei à minha dentista com um pedido estranho: pedi para trabalhar na recepção dela. Como estagiário. Sentei onde a secretária senta e cuidei da papelada eu mesmo - contrato por contrato, assinatura por assinatura, paciente por paciente. Senti exatamente onde o processo trava, o que os pacientes não entendem, o que a recepção improvisa para colher uma assinatura antes de o próximo paciente entrar.
O SantoDoc - nosso produto de assinatura eletrônica, juridicamente válido sem o certificado - saiu daquela cadeira. Construído primeiro para ela. Depois para todo mundo.
Sobre o que essa história realmente é
Seria arrumadinho dizer que a lição é “resolva um problema real de uma pessoa real”. É verdade e é inútil - todo mundo diz isso.
A lição de verdade é mais estreita e mais difícil: proximidade é um método, não uma fase. A cadeira da dentista nos deu o primeiro produto porque, por acaso, eu estava sentado nela. A recepção nos deu o segundo produto porque eu escolhi sentar lá, uma década depois, quando nada me obrigava. O acidente virou disciplina.
Algumas empresas começam com um pitch deck. A nossa começou com um dente quebrado - e nunca paramos de voltar àquele consultório.
Registro encerrado · 10.06.2026