Antes do Doutore

O Doutore é a nossa terceira empresa. As duas primeiras fracassaram. Essa é a parte da história que costuma ser comprimida numa única frase humilde - mas é nos detalhes que moram as lições, então aqui vai a estrada inteira.

O desvio que quase foi: a academia

Entrei na PUC-Rio aos dezesseis, caí no laboratório de robótica e virei campeão mundial de robôs de combate com a equipe RioBotz (essa história, e o encontro com o Gustavo lá dentro, vive em Vinte Anos, Zero Cargos). Passei um ano de intercâmbio na Universidade da Califórnia, Irvine, trabalhando num laboratório de energias renováveis - trabalho que acabou publicado como artigo científico sobre micro células de combustível PEM. Fiz cursos profissionais no MIT e estava tão decidido pela carreira acadêmica que me candidatei a um mestrado lá.

Mão com luva segurando um wafer de silício na sala limpa da UC Irvine
Anexo 01 · Sala limpa da UC Irvine: wafer na mão, artigo a caminho.

Aí comecei a trabalhar numa consultoria de estratégia - e em uma semana eu sabia que seria mais feliz construindo coisas no mundo real do que num laboratório. Abandonei o processo do mestrado. Vieram dois anos de Accenture: modelos operacionais de banco, uma integração pós-fusão petroquímica, e até o planejamento estratégico do Flamengo, meu time do coração. Ótimo treinamento. Não era a vida que eu queria. Em 2012, saí para abrir empresas com o Gustavo.

Multidão observando o helicóptero do presidente Obama pousar no clube do Flamengo
Anexo 02 · Durante o projeto do Flamengo: o dia em que o Obama pousou no clube.
Torcida do Flamengo aglomerada recebendo Ronaldinho Gaúcho
Anexo 03 · A torcida do Flamengo recebendo Ronaldinho Gaúcho.

Fracasso nº 1: carro.com.vc (2013)

A ideia era limpa: um “Airbnb de carros” no Brasil. Você tem um carro que usa uma hora por dia - alugue por hora para os vizinhos e reduza o custo de ter um carro.

Chegamos a vencer uma competição internacional de modelos de negócio na Universidade de Santa Clara com essa ideia. Um troféu, uma viagem aos Estados Unidos, validação de gente que estuda modelos de negócio profissionalmente.

O que encontramos no lugar de um mercado foi um muro: o seguro. O modelo inteiro depende de segurar um desconhecido dirigindo o seu carro, e nenhuma seguradora brasileira oferecia esse produto. Não dava para construirmos nós mesmos - não era nosso para construir.

Entrega das chaves de um carro ao lado do adesivo do carro.com.vc
Anexo 04 · carro.com.vc: entregando as chaves a um desconhecido.

Os quatro emails chutados

Quatro empresas nos Estados Unidos já faziam o que a gente queria fazer. Eu não as conhecia e não tinha os emails de ninguém. Então chutei - nome @ empresa .com - e mandei a mesma mensagem honesta quatro vezes: estou construindo algo parecido no Brasil. Estarei em San Francisco semana que vem. Café?

Os quatro fundadores responderam em minutos. Os quatro toparam. Comprei o voo depois que as respostas chegaram - a viagem existiu porque os emails funcionaram, e não o contrário.

As conversas foram extraordinárias. Pessoas que eu só conhecia de ler a respeito me explicaram exatamente como tinham destravado o seguro: a estrutura do produto, o modelo de precificação, o playbook inteiro, compartilhado abertamente com um desconhecido do outro hemisfério. Voltei para casa carregando duas verdades ao mesmo tempo. A feliz: eu agora sabia exatamente como guiar uma seguradora a construir aquele produto. A fatal: o player americano mais rápido tinha levado nove meses para colocar uma seguradora a bordo - e nós não tínhamos nove meses de caixa.

O que fica comigo não é a startup. É a meta-lição: a distância entre você e quase qualquer pessoa é um email honesto e específico. As pessoas respondem desconhecidos que claramente estão construindo algo e claramente respeitam o tempo delas.

Fracasso nº 2: o projeto de caronas (2013)

Se o seguro era o gargalo, talvez desse pelo menos para resolver o outro problema de marketplace - liquidez - e ter uma base de usuários pronta para o dia em que o seguro chegasse. Então lançamos um experimento de caronas para alunos da PUC: gente com carro, gente sem carro, mesmo campus, amigos em comum.

Viralizou. Mil e quinhentos cadastros em duas semanas. Televisão nacional - Bom Dia Brasil, Jornal da Globo, Globo News. A prefeitura do Rio nos procurou para estimular a carona na cidade inteira; fizemos sem cobrar nada (nome do projeto: Pelo Menos Duas), porque o que a gente queria era a base de usuários.

Aí tentamos transformar aquilo num negócio. Duas vezes. Uma carona dinâmica para estudantes; uma versão corporativa para funcionários de grandes empresas. Nenhuma monetizou.

Mural com as fotos de perfil dos primeiros 1.500 usuários do projeto de caronas
Anexo 05 · 1.500 rostos em duas semanas - e zero receita.

Tínhamos viralização, imprensa, parceria com a prefeitura, um troféu da startup anterior - e zero receita entre as duas ideias.

O fundo do poço - e por que ele foi o começo

No início de 2014 o dinheiro estava quase no fim e a situação era binária: criar algo pelo qual as pessoas pagam, ou procurar emprego. Eu estava nervoso o bastante para o bruxismo quebrar um dos meus dentes - o que me colocou na cadeira de uma dentista, que é onde o Doutore começou (essa história tem página própria).

Mas repare no que carregamos para dentro daquele consultório, porque nada disso foi sorte:

  • Validação não é receita. Imprensa não é receita. Viralização não é receita. Receita é receita. Duas empresas nos ensinaram isso - uma com troféu, outra com câmeras de TV.
  • Valide a intenção de compra antes de construir. Com o Doutore, colocamos preço no mockup ainda no almoço, antes de existir uma linha de código. O “CLARO!” veio com um número junto.
  • Velocidade é sobrevivência. A primeira versão saiu em exatamente um mês, porque desespero é um gerente de produto fenomenal.
  • Não construa em cima de uma dependência que você não controla. O carro.com.vc morreu do produto de outra empresa (o seguro). O Doutore não depende de nada que não construímos.
  • Audácia é barata. Quatro emails enviados nos renderam o playbook de uma indústria. Nunca paramos de mandar esse tipo de email.

Às vezes digo que dou graças a Deus que o carro.com.vc não deu certo, e estou falando literalmente. Não tivemos sucesso apesar dos dois fracassos. Tivemos sucesso porque, na terceira tentativa, as lições já estavam pagas - e o recibo da mensalidade foi um dente quebrado.

Registro encerrado · 05.06.2026

Registro aberto em 2014 · tudo começou com um dente quebrado 🦷 leia a história

© 2026 Guilherme Porto · Brasil

Arquivado · Brasil